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Minha história
Ao longo de muitos anos de escuta, fui percebendo que o sofrimento nem sempre se apresenta de forma evidente. Em muitos casos, ele se organiza, se adapta e continua funcionando, mesmo quando já não encontra espaço para ser reconhecido.
Grande parte das histórias que acompanhei não falava de crises abertas, mas de um cansaço que se acumula, de uma dificuldade de parar, de uma vida que segue acontecendo enquanto algo, internamente, permanece sem lugar.
Sempre me chamou atenção a forma como aquilo que mais pesa raramente encontra linguagem. Como se, para continuar vivendo, algumas experiências precisassem primeiro aprender a se calar.
Com o tempo, fui reconhecendo que certos estados não se explicam com facilidade. Eles se atravessam em silêncio, muitas vezes sem testemunha, até que encontrem alguma possibilidade de elaboração. Há experiências que não pedem explicação imediata, mas presença suficiente para serem atravessadas.
Foi nesse contato contínuo com o que não se diz que a escrita começou a ganhar forma. Não como um projeto, mas como uma maneira de permanecer próxima dessas experiências, mesmo fora do espaço da clínica.
Meu trabalho não se orienta pela ideia de ensinar alguém a lidar melhor com a própria vida. Ele se constrói a partir da escuta, de um espaço em que não é necessário corresponder, se justificar ou sustentar uma imagem.
A clínica me ensinou que o sofrimento psíquico pode ser silencioso, organizado e, muitas vezes, socialmente aceito, até o momento em que algo deixa de se sustentar. É nesse ponto que, com cuidado, outra forma de existir pode começar a ser construída.
Os textos e livros que escrevo nascem desse percurso. Eles não oferecem respostas prontas, mas procuram acompanhar aquilo que, em cada um, ainda está tentando encontrar forma.